Sexta-feira, Outubro 08, 2010

Não gosto deste país.

Hoje estou desiludido com o meu país. Não gosto dele.
Hoje, este país não me dá futuro. Ou melhor, acaba com as merecidas perspectivas de futuro que criei.
É um país que tem ao leme gente sem carácter, "peneirenta" (como disse o Frei Fernando Ventura numa clarividente análise recentemente), gente egoísta, corrupta, sem sentido de Estado, muito menos de dever. Gente que é capaz de hipotecar um povo e as gerações futuras para ter simplesmente o poder nas mãos. Sim, o poder. Vale mais, muito mais que o dinheiro. E é afrodisíaco para alguns, vê-se nos seus olhos.
Um país com 900 anos de história, grande outrora, tão grande que já duvidamos dos livros de história, de tão difícil que é acreditar. Pequeno agora, tão pequeno que já vemos timorenses com pena de nós.
Que fizeste pelo teu país, podem perguntar. Pouco, responderei. Mas acrescentarei: ontem acordei com vontade de fazer, de contribuir. Ontem tinha um projecto, e nesse projecto o bem-comum, o benefício da sociedade era parte integrante. Hoje, acordei e tudo mudou. Roubaram-me esse projecto. Tenho de reagir e assim o farei, mas o bem-comum, o benefício da sociedade, esse vai ter de ficar para trás, porque hoje vejo-me obrigado a ser egoísta, a pensar única e exclusivamente em mim (e nos meus). E isto deixa-me de rastos, mata o Viriato dentro de mim. Envergonha-me.
Quando um país nos envergonha, deixamos de o amar. Tornamo-nos "timorenses" e só já sentimos pena.
A esperança existe, assente na certeza de que Portugal não é o corrupto do Sócrates, nem o idiota do deputado de província, de que Portugal não é o tal país, dirão os estrangeiros, que corta nos salários para arrecadar 1000 milhões de euros e depois compra dois submarinos por 1000 milhões de euros. Mas é uma esperança pouco esperançosa, enquanto tivermos ex-presidentes da Assembleia da República que digam barbaridades dignas de um bobo de uma corte medieval, enquanto esquecermos a miséria em que vivemos e produzirmos mais no dia seguinte só porque a selecção de futebol luso-brasileira ganhou à Dinamarca.
Portugal é mais do que um Governo, muito mais do que o caciquismo instalado, do que pão e circo, do que os interesses económicos que nos consomem na penúmbra, do que lutas de poder disfarçadas, que na verdade se intercalam com abraços e pancadinhas nas costas de bastidor. Portugal será muito mais do que isto. Mas enquanto não o for, enquanto acordar e tiver pela frente um dia que não é o meu, sentirei vergonha, pena e desamor deste país a que pertenço no bilhete de identidade.
Não gosto deste país. Não gosto dele assim.